terça-feira, 1 de maio de 2012

Porque ler Caio F. não faz de mim uma pseudointelectual da internet.

    Confesso que não lembro ao certo quando e como comecei a ler Caio Fernando Abreu.Ou seja, como tudo de importante que aconteceu e acontece na minha vida nunca consigo lembrar dos inícios.Mas o que importa nessa história toda é que a escrita deste distinto  senhor ajudou sim a moldar minha forma de pensar, de ver as coisas, e até de como encarar as peripécias da Senhora Dona Vida de um jeito mais humano,mais audacioso,mais tudo!
   Então, quando vejo pessoas jogando indiretas ou tentando depreciar minhas leituras acerca da obra do mesmo,isso me deixa deveras irritada! Tudo bem que alguém pode levantar a questão de que o Caio virou modinha na internet, que muitas vezes atribuem frases comprovadamente não suas a ele,mas pelo amor de alguma coisa na vida , não venham  me criticar por ser uma leitora de textos completos dele.
     Se quer criticar a mim por lê-lo e idolatrá-lo ,pelos menos se dêem ao trabalho de ler sua verdadeira obra, e não apenas  frases soltas , que publicadas fora de contextos já foram até consideradas de auto-ajuda, o que de fato é uma grande ironia...
 O fato é que o texto em si do meu amado poeta maldito está cheio de nuances provocativas,passando por varias fases, desde o dark das drogas até o ápice da lucidez total da vida de quem atingiu a maturidade emocional. E pude constatar isso mais claramente depois da leitura de suas cartas reunidas e publicadas depois da sua morte, por um amigo.
   Lá está o Caio Fernando nascido em Santiago, interior do Rio Grande do Sul,o menino que aos 11 anos já tinha escrito sua primeira tentativa de romance, do qual vou ficar devendo o nome,por não ser uma leitora tão ortodoxa quanto gostaria de ser; está também o adolescente pensativo e intuitivo que se muda para estudar em Porto Alegre, e descobre o que é sentir saudade na própria pele e escrita!
   Com o passar dos anos , já  no início da vida adulta resolve muda-se para o eixo Rio-São Paulo a fim de publicar e divulgar seu primeiro livro tido como profissional da escrita " Limite Branco".
   Como também vermos saltar aos nossos olhos, o jovem sensível, porém impetuoso,cheio de cabelos e ideias na cabeça,cheio de vontade de desvendar e adentrar nos meandros da literatura pura,profunda, humana.
 Através da leitura de suas cartas, acabamos por nos deparar com o Caio apaixonado por uma menina, a ponto de passar anos se correspondendo com ela,vermos também  sua constatação acerca de sua sexualidade aberta,sincera e não rotulada,suas experiências com as drogas,desde suas viagens de ácido comprometidas com o autoconhecimento até as fossas do álcool e da cocaína da vida adulta.
 E no meio de tudo isso, sua incessante produção literária,ás vezes sofrida, conflituosa, outras doce e quase voluntaria;influenciada por Clarice Lispector, Virgínia Woolf, Adélia Prado, Pessoa,Camões, Blake e por aí vai...
    Há também suas experiências fora do país, quando chegou até ser lavador de pratos na Suécia,em nome da sua grande vontade de conhecer o mundo, mesmo sem ter meios financeiros para isso.Não posso deixar de falar também sobre suas infidáveis buscas afetivas, se alguém soube amar na vida e consequentemente sofrer decepções , essa pessoa foi ele.
    Caio F. sofreu com a censura da ditadura militar, com a falta de estabilidade financeira, com a falta de perpectivas de um futuro, quase sempre incerto.No entanto, ele tinha muitos amigos,muita fé, muita luz, muito axé. Acreditava em astrologia, no sobrenatural com a mesma naturalidade que acreditava nas coisas tidas como concretas!
  Há quem não goste de sua pessoa, escrita, jeito, personalidade ou tudo junto,mas uma coisa não se pode negar: sua alta qualidade literária. Ele é ate hoje considerado o grande ícone da literatura brasileira de sua geração e tem conseguido alcançar as gerações atuais como a mesma ou talvez mais força que a sua!
  Claro que o público de hoje é totalmente diferente do de sua época,onde , por exemplo, a Aids era considerado assunto tabu e quase sempre atribuído somente aos homossexuais e vista como uma sentença de morte certa e breve.
   Foi dentro deste contexto hostil que Caio enfrentou a doença e o preconceito, de modo digno, sincero.E  não aceitou-a como sentença de morte, e sim como um desafio de vida, vida esta produtiva, cheia de projetos literários e oportunidades de crescimento humano.
 Diante disso tudo, podemos entender o porque do seu sucesso nos dias atuais, creio que o público jovem de hoje busque apoio, conforto em suas palavras, muitas vezes mal interpretadas , por serem retiradas fora do contexto,mas também acredito que essas mesmas frases soltas podem ser a ponta que leva a esses novos leitores a querer conhecer seus textos completos, e assim, conseguir amarrar de vez o pensamento intriseco, belo, forte, confuso e ao mesmo tempo fluído de Caio Fernando Abreu.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Tiveram um instante fugaz...